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Jack Dorsey na mira: grupo investidor quer remover o presidente do Twitter


Os dias do presidente executivo Jack Dorsey à frente do Twitter podem estar contados. Ao menos, se depender do grupo investidor Elliott Management, que estaria comprando ações da rede social e fazendo pressão para remover Dorsey do cargo, de acordo as agências Reuters e Bloomberg.
O grupo de investidores, liderado pelo bilionário Paul Singer, teria adquirido recentemente uma uma fatia de 4% no Twitter (o equivalente a US$ 1bilhão), o que daria poder dentro da estrutura da empresa, permitindo a indicação de membros para o conselho da rede social.
Nesta quinta-feira (5), em uma conferência do banco Morgan Stanley, Dorsey fez uma espécie de prestação de contas pública sobre as ações que tem tomado nos últimos anos. As falas do presidente foram publicadas na conta de relações com investidores do Twitter e ele até reviu algumas declarações do ano passado, dizendo que estava reconsiderando passar parte de 2020 na África.
5 years ago we had to do a really hard reset and that takes time to build from… we had been a company that was trying to do too many things... — March 5, 2020
Jack Dorsey, presidente e fundador do Twitter, poderia estar à beira de uma batalha com acionistas da empresa — Foto: Toby Melville/Reuters
O grupo Elliott é famoso por ser "ativista" em seus investimentos, levando empresas à substituição de executivos e a mudanças no conselho, com pressões para elevar o preço das ações.
Singer já foi descrito na imprensa americana como o “investidor mais temido do mundo” e também é um conhecido apoiador do Partido Republicano nos EUA.
Já Dorsey é famoso por ser um executivo pouco convencional.
Fundador do Twitter, ele já deixou o posto uma vez — sob a pecha de gastar muito tempo fazendo yoga e tendo aulas de design de moda. Ele retornou em 2015.
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À época, Dorsey já tinha um trabalho como presidente de outra empresa, a Square, uma companhia de pagamentos digitais — atualmente ele atua como diretor de ambas e trabalha apenas meio período em cada uma.
Apesar disso, Dorsey tem uma participação financeira maior na Square — ele é dono de 13% da empresa — e vários de seus interesses muitas vezes focam nos negócios desta empresa. No Twitter, Dorsey detém 2% das ações.
Paul Singer, investidor à frente da Elliott Management — Foto: Mike Blake/Reuters
Infelicidade generalizada?
No final do ano passado, Scott Galloway, professor de marketing da Universidade de Nova York e um dos investidores do Twitter, já havia endossado a saída de Dorsey.
A gota d’água, segundo o professor, foi o anúncio do executivo, no ano passado, de que ele iria passar parte de 2020 na África. “Um presidente de meio período que está de mudança para a África? Já chega”, escreveu Galloway em uma carta aberta a Omid Kordestani, diretor do conselho do Twitter.
Galloway argumenta que o problema é o baixo retorno do investimento: a rede social estaria abaixo dos concorrentes em todas as métricas.
Desde julho de 2015, quando Dorsey voltou ao cargo de presidente, as ações do Twitter valorizaram 16%. Outras empresas que operam no mercado de publicidade digital, como Google e Facebook, tiveram ganhos bem mais expressivos nesses quase 5 anos e, pelo menos, dobraram de valor.
Evolução do valor das ações de Twitter e Facebook nos últimos 5 anos. — Foto: Guilherme Pinheiro/G1
Galloway afirma ainda que muitos executivos deixaram a empresa nos últimos anos e que esse êxodo impactou o desenvolvimento de produtos e o crescimento do Twitter.
Por exemplo, a empresa anunciou em 2016 que encerraria o Vine, um produto que exibia vídeos curtos. Hoje, um modelo muito parecido é sucesso no TikTok, que já conta com mais de 1 bilhão de downloads. O fim do Vine é visto por muitos como uma oportunidade perdida pelo Twitter.
Do outro lado, funcionários da rede social manifestaram apoio à permanência de Dorsey, subindo a hashtag #WeBackJack (“Nós apoiamos o Jack”, em tradução livre), na última segunda-feira (2). Até Elon Musk, presidente da montadora Tesla, veio a público expressar solidariedade ao executivo.
Musk, que é um ávido usuário do Twitter (e já até enfrentou problemas por usar a plataforma), escreveu que apoia Jack no comando da empresa e que “ele tem um bom coração”.
Just want say that I support @Jack as Twitter CEO. He has a good ??. — March 3, 2020
Só o valor das ações importa?
Para analistas de mercado, o Twitter tem um bom prospecto para 2020. De acordo com Michael Levine, analista da empresa Pivotal Reserach, o ano tem grandes eventos como Olimpíadas e eleições nos EUA, o que movimenta usuários na rede social e dá maior retorno para anúncios.
“Acreditamos que o pior ficou para trás”, escreveu Levine em carta para investidores após a divulgação dos resultados da empresa em fevereiro — a primeira vez que o Twitter faturou US$ 1 bilhão em um único trimestre.
Em 2018, o Twitter teve lucro operacional alto, de US$ 453 milhões. No ano passado, o valor foi de US$ 366 milhões.
Para Alberto Amparo, analista de investimentos na Suno Research, não necessariamente uma companhia é medida por desempenhos no lucro no presente. “No final das contas, uma empresa é avaliada pelo fluxo de caixa que ela consegue gerar para acionistas, a quantidade de dinheiro que vai dar e em quanto tempo”.
Segundo o analista, não é simples aferir o valor de uma empresa e o quanto ela pode gerar.
“Dorsey defende muito a experiência do consumidor, criar uma rede onde todos tenham voz. Como existem muitas redes sociais, é difícil implementar monetização e correr o risco de perder usuários engajados”, diz, afirmando que o Google demorou para implementar um modelo mais agressivo de monetização do YouTube, por exemplo.
Estrutura facilita ‘ativismo’
A estrutura acionária do Twitter facilita o tipo de ativismo investidor que a Elliott Management estaria fazendo contra Dorsey. Nas ações do Twitter, todos os investidores têm o mesmo poder de voto.
Diferente de Mark Zuckerberg — que detém um tipo específico de ação, que garante que ele mantenha o controle da empresa —, Dorsey não traçou um plano desse tipo e tem apenas 2% de controle do Twitter, o que o deixa vulnerável à atuação de outros acionistas.
Outros fundadores, como Evan Spiegel, presidente do Snapchat, adotaram práticas semelhantes à de Zuckerberg para se manter na direção da empresa aconteça o que acontecer.
Essas ações foram tomadas porque esse tipo de atuação de grupos de investidores é mais comum nos EUA. “Eles são investidores muito capacitados que compram fatias de empresas que não são totalmente eficientes e tomam atitudes que acreditam que vão gerar mais valor”, explica Amparo.

Fonte: G1


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